Um pião para toda a vida
CRÓNICAS DO NORDESTE é uma rubrica que se pretende fundamentalmente subjectiva. Um espaço simples que tem sempre por base a região, a sua história, a sua cultura e as suas gentes. Um espaço franco onde os sentires sem barreiras e os estados de alma pura podem ser vertidos a qualquer momento.O responsável por esta rubrica escreve esporadicamente.
Publicado domingo, novembro 21, 2010 | Por: António Luís Pereira
Joaquim. Vou chamá-lo por este nome nestas linhas alinhavadas com tristeza.
Joaquim foi meu amigo de infância. Sentámo-nos nos mesmos bancos de uma escola primária que rematava o esporão onde se pendurou, entre socalcos e vinhedos, uma pequena aldeia branca.
Da escola ficou-me a reminiscência de um Joaquim de tipo perfeccionista que arredondava exageradamente o pontos dos is e os pontos finais até encher ridiculamente o espaço pautado do caderno diário. A professora Rosa zangava-se com o Joaquim por causa desta tola teimosia de querer produzir um pontinho perfeitamente circular; tão circular como o redondinho das esferas dos rolamentos que serviam de rodados aos carrinhos de madeira que deslizavam em alucinante velocidade pela rampa cimentada da Taverna do Cágado.
O Joaquim era um perfeccionista, já o disse, e essa perseguição que fazia ao perfeito, ao ideal, talvez ao belo, reflectia-se nas suas obras. Fazia carrinhos de rolamentos como ninguém, ganchas de arame para arcos com requintados enfeites, e carros de cana com rodas de cortiça recauchutadas com tiras de borracha das câmaras-de-ar que encontrava junto da oficina do Sr. Manuel. Depois desenhava com um pequenino canivete marcas na borracha a imitar o piso de um verdadeiro pneu.
Mas o Joaquim era um menino só. Brincava apenas comigo e tinha em mim um dos seus poucos amigos. Eu dava-lhe atenção e admirava toda aquela sua perícia de engenheiro, arquitecto e construtor. O Joaquim era genial em tudo o que fazia. Além de mecânico era também um requintado ferreiro, capaz de aguçar tão irrepreensivelmente uma cavilha para o jogo do ferro, como em substituir e tornar inacreditavelmente afiado o bico de um qualquer pião.
Todos os que tiveram uma infância na aldeia sabem que o jogo do pião tinha por detrás uma competição algo perversa, pois que um dos objectivos era rachar ao meio o pião do adversário. Riscava-se um círculo na terra e atirava-se para o seu interior os piões dos concorrentes. Os que saíssem a rodopiar para fora do círculo ficariam depois sujeito às investidas das ferroadas de todos os piões que estivessem em jogo.
Porque o jogo exigia um aperfeiçoamento do material e algumas “alterações técnicas” efectuadas às peças do rodopio, eis que os rapazes tentavam encontrar o exemplar mais aprimorado para aplicar as mais eficazes e mortíferas “nicadas” aos piões dos adversários.
Eu que nunca fui, nem sou, muito habilitado para trabalhos manuais, acabei por ter em minhas mãos um esplêndido exemplar de pião cujo ferrão foi substituído e competentemente afiado pelas mãos do Joaquim. E num momento de sorte e de rara inspiração acabei por dar bom uso a tão magnifica peça.
Sim, lembro-me tão claramente ainda hoje desse feito que até parece que o estou a viver. O meu pião tinha sido afiadinho pela técnica, perícia e perfeição do meu amigo Joaquim e ao lançá-lo numa tarde de inverno de um dia próximo ao Natal foi cair em cheio em cima do pião do Zé Miguel que estava adormecido pela velocidade do remoinho e… pum… quase que milagrosamente, zás, vi pela única vez na minha vida um pião arremessado por minhas próprias mãos a dividir em duas metades o pião concorrente de um dos meus companheiros de brincadeira.
Talvez recorde este dia pela forma como a seguir a esta minha vitória tudo se precipitou. O Zé Miguel não gostou de ver o seu pião dividido em dois como se de duas partes de uma mesma maçã se tratasse, e vai daí partiu para a violência, arremessando indiscriminadamente e em todas as direcções pedradas de xisto, até que uma veio precipitar-se na minha testa, para depois me encharcar o rosto de sangue.
O Zé Miguel partiu a correr não sei bem para onde, e perante os meus gritos de dor, raiva e desespero foi o Joaquim que ficou para me socorrer. Lavámos a ferida no regato da charca da azenha e depois foi ainda o Joaquim que me acompanhou a casa para tentar convencer a minha mãe de que eu não tive culpa na contenda; e que regras são regras; e que se eu escachei ao meio o pião do Zé Miguel ele escachou-me a mim a cabeça que foi muito pior; e que - voltava Joaquim a insistir - a culpa foi do José Miguel porque regras são regras e ele antes de jogar aceitou as regras do jogo.
Depois de defendido por tão ilustre advogado, a juíza decidiu. Perante a argumentação do amigo não me recriminou por causa da racha na testa que ainda hoje apalpo como um relevo de recordações, mas antes de me conduzir ao posto de saúde, recriminou-me sim pela elegância do meu pião, tendo proclamado, em solene tom, que não me queria ver mais a jogar com um exemplar de bico tão grande e afiado.
Não me recordo se a partir desse dia voltei a jogar ao pião. Assim como não me recordo de tantas outras coisas que hoje gostava de recordar.
Ao Joaquim perdi-lhe o rasto depois de concluída a 4ª classe. Ouvia falar dele quando já adiantado na juventude fazia as minhas visitas à aldeia; ouvia sobretudo falar da história trágica da sua vida, história essa desde muito cedo anunciada pela maldita pobreza a que o destino o condenou. Mas nunca mais o vi.
Disseram-me há muitos anos que se tinha tornado fogueteiro depois de ter partido para a Beira Alta. Compreendi a sua opção. Era natural ter escolhido tal ofício. Assim continuou na sua constante busca da mestria e da beleza.
Este ano, no dia dos fiéis defuntos, visitei o meu pai no cemitério da terra. E, por mera coincidência, percebi que o Joaquim também já morreu. Assim estava escrito e assinalado numa parda e triste lápide. Morreu cedo, com apenas quarenta e cinco anos de idade, vítima de uma cirrose provocada pelas intermináveis bebedeiras com que encharcava a pobreza, a miséria material, e a sua rica inteligência.
Do Joaquim ficará para sempre essa imagem magnifica: os piões, os arcos tocados por entrançadas ganchas, o jogo do ferro, os carros de cana e cortiça, os carrinhos de rolamentos…
E hoje, no momento em que escrevo este texto, ao pensar nos jogos e nas brincadeiras da minha infância, penso no Joaquim. E enquanto penso, penso-o e vejo-o a afiar o bico de um pião. E no seu esmero de mestre vejo o Joaquim a sorrir, sempre a sorrir, enquanto apetrecha um exemplar que me haverá de oferecer quando eu voltar a ser menino.
Joaquim foi meu amigo de infância. Sentámo-nos nos mesmos bancos de uma escola primária que rematava o esporão onde se pendurou, entre socalcos e vinhedos, uma pequena aldeia branca.
Da escola ficou-me a reminiscência de um Joaquim de tipo perfeccionista que arredondava exageradamente o pontos dos is e os pontos finais até encher ridiculamente o espaço pautado do caderno diário. A professora Rosa zangava-se com o Joaquim por causa desta tola teimosia de querer produzir um pontinho perfeitamente circular; tão circular como o redondinho das esferas dos rolamentos que serviam de rodados aos carrinhos de madeira que deslizavam em alucinante velocidade pela rampa cimentada da Taverna do Cágado.
O Joaquim era um perfeccionista, já o disse, e essa perseguição que fazia ao perfeito, ao ideal, talvez ao belo, reflectia-se nas suas obras. Fazia carrinhos de rolamentos como ninguém, ganchas de arame para arcos com requintados enfeites, e carros de cana com rodas de cortiça recauchutadas com tiras de borracha das câmaras-de-ar que encontrava junto da oficina do Sr. Manuel. Depois desenhava com um pequenino canivete marcas na borracha a imitar o piso de um verdadeiro pneu.
Mas o Joaquim era um menino só. Brincava apenas comigo e tinha em mim um dos seus poucos amigos. Eu dava-lhe atenção e admirava toda aquela sua perícia de engenheiro, arquitecto e construtor. O Joaquim era genial em tudo o que fazia. Além de mecânico era também um requintado ferreiro, capaz de aguçar tão irrepreensivelmente uma cavilha para o jogo do ferro, como em substituir e tornar inacreditavelmente afiado o bico de um qualquer pião.
Todos os que tiveram uma infância na aldeia sabem que o jogo do pião tinha por detrás uma competição algo perversa, pois que um dos objectivos era rachar ao meio o pião do adversário. Riscava-se um círculo na terra e atirava-se para o seu interior os piões dos concorrentes. Os que saíssem a rodopiar para fora do círculo ficariam depois sujeito às investidas das ferroadas de todos os piões que estivessem em jogo.
Porque o jogo exigia um aperfeiçoamento do material e algumas “alterações técnicas” efectuadas às peças do rodopio, eis que os rapazes tentavam encontrar o exemplar mais aprimorado para aplicar as mais eficazes e mortíferas “nicadas” aos piões dos adversários.
Eu que nunca fui, nem sou, muito habilitado para trabalhos manuais, acabei por ter em minhas mãos um esplêndido exemplar de pião cujo ferrão foi substituído e competentemente afiado pelas mãos do Joaquim. E num momento de sorte e de rara inspiração acabei por dar bom uso a tão magnifica peça.
Sim, lembro-me tão claramente ainda hoje desse feito que até parece que o estou a viver. O meu pião tinha sido afiadinho pela técnica, perícia e perfeição do meu amigo Joaquim e ao lançá-lo numa tarde de inverno de um dia próximo ao Natal foi cair em cheio em cima do pião do Zé Miguel que estava adormecido pela velocidade do remoinho e… pum… quase que milagrosamente, zás, vi pela única vez na minha vida um pião arremessado por minhas próprias mãos a dividir em duas metades o pião concorrente de um dos meus companheiros de brincadeira.
Talvez recorde este dia pela forma como a seguir a esta minha vitória tudo se precipitou. O Zé Miguel não gostou de ver o seu pião dividido em dois como se de duas partes de uma mesma maçã se tratasse, e vai daí partiu para a violência, arremessando indiscriminadamente e em todas as direcções pedradas de xisto, até que uma veio precipitar-se na minha testa, para depois me encharcar o rosto de sangue.
O Zé Miguel partiu a correr não sei bem para onde, e perante os meus gritos de dor, raiva e desespero foi o Joaquim que ficou para me socorrer. Lavámos a ferida no regato da charca da azenha e depois foi ainda o Joaquim que me acompanhou a casa para tentar convencer a minha mãe de que eu não tive culpa na contenda; e que regras são regras; e que se eu escachei ao meio o pião do Zé Miguel ele escachou-me a mim a cabeça que foi muito pior; e que - voltava Joaquim a insistir - a culpa foi do José Miguel porque regras são regras e ele antes de jogar aceitou as regras do jogo.
Depois de defendido por tão ilustre advogado, a juíza decidiu. Perante a argumentação do amigo não me recriminou por causa da racha na testa que ainda hoje apalpo como um relevo de recordações, mas antes de me conduzir ao posto de saúde, recriminou-me sim pela elegância do meu pião, tendo proclamado, em solene tom, que não me queria ver mais a jogar com um exemplar de bico tão grande e afiado.
Não me recordo se a partir desse dia voltei a jogar ao pião. Assim como não me recordo de tantas outras coisas que hoje gostava de recordar.
Ao Joaquim perdi-lhe o rasto depois de concluída a 4ª classe. Ouvia falar dele quando já adiantado na juventude fazia as minhas visitas à aldeia; ouvia sobretudo falar da história trágica da sua vida, história essa desde muito cedo anunciada pela maldita pobreza a que o destino o condenou. Mas nunca mais o vi.
Disseram-me há muitos anos que se tinha tornado fogueteiro depois de ter partido para a Beira Alta. Compreendi a sua opção. Era natural ter escolhido tal ofício. Assim continuou na sua constante busca da mestria e da beleza.
Este ano, no dia dos fiéis defuntos, visitei o meu pai no cemitério da terra. E, por mera coincidência, percebi que o Joaquim também já morreu. Assim estava escrito e assinalado numa parda e triste lápide. Morreu cedo, com apenas quarenta e cinco anos de idade, vítima de uma cirrose provocada pelas intermináveis bebedeiras com que encharcava a pobreza, a miséria material, e a sua rica inteligência.
Do Joaquim ficará para sempre essa imagem magnifica: os piões, os arcos tocados por entrançadas ganchas, o jogo do ferro, os carros de cana e cortiça, os carrinhos de rolamentos…
E hoje, no momento em que escrevo este texto, ao pensar nos jogos e nas brincadeiras da minha infância, penso no Joaquim. E enquanto penso, penso-o e vejo-o a afiar o bico de um pião. E no seu esmero de mestre vejo o Joaquim a sorrir, sempre a sorrir, enquanto apetrecha um exemplar que me haverá de oferecer quando eu voltar a ser menino.

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