| Jornal online - Registo ERC nº 125301



Clotilde, um sorriso improvável ao fim do dia
CRÓNICAS DO NORDESTE é uma rubrica que se pretende fundamentalmente subjectiva. Um espaço simples que tem sempre por base a região, a sua história, a sua cultura e as suas gentes. Um espaço franco onde os sentires sem barreiras e os estados de alma pura podem ser vertidos a qualquer momento.
O responsável por esta rubrica escreve esporadicamente.

Publicado sábado, dezembro 18, 2010 | Por: António Luís Pereira

Hoje encharquei-me de água tépida desde o baixo-ventre até às pontas dos sapatos quando tentava remover o gelo do vidro do meu carro. Logo pelo cedo da manhã, ainda nem sequer sete horas eram, e já o dia me começava a saturar o espírito numa indisposição e gélido mau estar. Mesmo assim, não voltei atrás para trocar a indumentária e numa auto-recriminação espartana suportei com indiferença um frio antigo que quase me abreviou o corpo. Estavam quatro graus negativos!

Depois lancei-me ao caminho com as calças a secarem ao vento da “sulfagem” e as notícias da rádio a entupirem-me os poros da alma com as desgraças do dia.

Cheguei ao destino atrasado quinze minutos por causa de um acidente na estrada (deve ter sido do gelo), mas mesmo assim não fui o último a chegar. Atrás de mim apareceram mais de metade dos acólitos. Chegaram atrasados, porque toda a gente chega atrasada e porque sabendo-se disso cada “chico esperto” tenta chegar mais atrasado do que o seu próximo para não estar feito em burro à espera de alguém.

E como hoje acordei mal disposto, e logo de seguida molhei-me todinho da braguilha para baixo, continuo mal disposto e acho que todos os gajos do mundo merecem ser criticados. E então, entretenho-me a desenhar com o giz dos olhos caricaturas que colo em cada um dos tipos que se me dirigem. E não os ouço, ou apenas ouço as palavras que me escorrem da mente para o gatafunhar de uma folha em branco.

Lugares comuns. Frases já ouvidas. Conversas dobradas e uníssonos, tipos que gostam de se ouvir, multiplicação de vozes e anuências. Ninguém a discordar e só eu é que discordo e os gajos a pensarem que tenho mau feitio ou que se calhar estou mal disposto. E estou !

E depois é o senhor do telefone que não entende o que eu quero dizer, e o telefone a tocar e as vozes a desesperarem-me e o tédio a moer-me e a má disposição que não passa.

Detesto os dias com conversas tidas sem epílogos, onde ficam frases em aberto e dúvidas a pairar em falsas deduções. Detesto os dias em que o telefone me invade os ouvidos com o bafo de dizeres lineares, onde as vírgulas não existem, as exclamações são raras e as interrogações são nulas. Gosto de ritmo naquilo que ouço. Gosto dos compassos de espera, da procura das palavras… e desconfio daqueles que falam sempre de seguida até esgotarem o fôlego e não põem tonalidade no que dizem ou não fazem reticências para reorganizar no pensamento, o fluxo , o chorrilho das ideias que nos aflui ao cérebro.

E este dia teima em ser assim. E nem o almoço me aqueceu o ânimo! E o telefone a tocar e os tipos inteligentes a falarem e eu mal disposto, sempre maldisposto e sisudo a gatafunhar folhas e mais folhas onde verto o giz que me escorre dos olhos.

E sempre que olho não vejo, porque apenas vejo o que os meus olhos desenham. E agora não vejo ninguém e não ouço ninguém, porque já estou cansado e continuo maldisposto.

São seis da tarde, finalmente o fim, os cumprimentos, as despedidas, as palmadinhas da praxe.

Dirijo-me ao guiché da entrada para apanhar o meu sobretudo. De lá um sorriso rasgado de uma mulher talvez com uns cinquenta anos. Um sorriso brilhante que me encandeia como farolins no máximo de um automóvel no breu. Procura o meu sobretudo e não o encontra. Está feliz. Bem disposta. Procura e procura e eu espero. Depois sou eu que dou uma ajuda e lá aparece o sobretudo. E ela, com um crachá de identificação sobre o seio esquerdo onde se lê Clotilde Araújo, sempre a sorrir, entrega-me o casaco e desculpa-se:

- “Desculpe, ainda não estou muito prática, é hoje o meu primeiro dia de trabalho aqui. Finalmente consegui outra vez emprego!...”

E eu sorrio-lhe e depois saio. Caminho para o carro. E ao meter a chave na porta relembro o encharque da manhã. Arranco de regresso. Adivinha-se outra geada. Vejo-me no retrovisor…
continuo a sorrir.

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