“Um dia o burro solta-se!”
CRÓNICAS DO NORDESTE é uma rubrica que se pretende fundamentalmente subjectiva. Um espaço simples que tem sempre por base a região, a sua história, a sua cultura e as suas gentes. Um espaço franco onde os sentires sem barreiras e os estados de alma pura podem ser vertidos a qualquer momento.O responsável por esta rubrica escreve esporadicamente.
Publicado sábado, março 05, 2011 | Por: António Luís Pereira
Filósofo, imaginativo, satírico e inteligente. Quando vejo o Ti Jerónimo, recordo-me sempre daquele homem corpulento e forte que esticava os braços até as palmas das mãos tocarem na padieira da porta de sua casa e a olhar para o céu de lá ditava a sua sentença meteorológica:
- “Amanhã vai chover, Sr. Luís”.
O senhor Luís era o meu avô materno que vivia porta com porta com o Ti Jerónimo e que mais do que ninguém confiava piamente nas suas previsões meteorológicas. E o meu avô tinha as mais comprovadas razões, pois segundo me recordo, eram raras as vezes em que a análise que o Ti Jerónimo fazia à correria das nuvens estava errada.
De pequenino ficaram-me estas reminiscências do homem que hoje vos vou falar e que quase nem dão para a consistência de um parágrafo; mas durante a minha juventude lembro-me perfeitamente das longas conversas que tínhamos sentados num muro de xisto à entrada da rua que sempre foi só nossa. Minha e do Ti Jerónimo.
Quando nos meus quinze ou dezasseis anos me apresentaram e eu comecei a compreender o que é a Filosofia, logo encontrei no Ti Jerónimo o arquétipo do verdadeiro filósofo, não pela maneira como se expressava, mas sim pela consistência com que raciocinava, analisava, espartilhava as ideias e depois reconstituía de forma original um ordenado e lógico pensamento.
A sua escolaridade era a essencial para o meio onde vivia, tendo-se ficado apenas pela 3ª classe, estudos que lhe proporcionaram os instrumentos necessários para saber ler e para fazer operações matemáticas simples como somar, subtrair, dividir e multiplicar.
Contudo, o Ti Jerónimo tinha um cérebro fabuloso, de rápida compreensão e fácil assimilação que incorporava tudo o que se lhe dizia. Mas mais do que incorporar ou assimilar, o seu pensamento seleccionava, ordenava, analisava, estruturava e concluía.
O único “senão”, residia nos momentos em que um copito a mais lhe toldava a sua racionalidade cartesiana e ele partia para um mundo imaginário quase sem fundo, meio quixotesco, desfiando sem parar uma sequência de estórias que de forma quase cerimonial relatava na primeira pessoa, mas que se percebia bem que eram pura mentira, inventadas no momento, dando asas a uma imaginação galopante que só parava quando o efeito de Baco lhe abandonava o córtex.
Era nessas alturas que eu mais gostava de o ouvir! E que parvo eu fui em não ter registado por escrito, ou por outros meios, aquele alfobre de imaginação, de estórias bem construídas, onde desfilavam mulheres bonitas, soldados audazes, ricos, pobres, camponeses, exploradores sem escrúpulos, pobres desenrascados, cenas de caça, cenas de pesca, cenas de trabalho, lobisomens, feiticeiras, almas do outro mundo, aventuras de romaria, e tudo, tudo muito bem descrito até ao pormenor da cor, do som, do cheiro e de todo um ambiente onde se movia um único e invencível herói: o Ti Jerónimo!
O vinho dava-lhe apenas para isso. Para inventar, inventar sem cessar estórias que quase pareciam reais, mas que na verdade não passavam de uma incontrolável fantasia que aflorava à cabeça do meu vizinho nos finais das tardes de Domingo. Só nesse dia é que o Ti Jerónimo abusava um pouquito mais dos copitos, e então, antes da ceia, quando as tardes quentes de verão caiam para os lados de Provezende, num vermelhão escaldante que se empoleirava, antes da noite cair, no topo do monte de S. Domingos, lá ficava ele a verter pelos esbugalhados e acinzentados olhos as imagens criadas no bulício da sua imaginação.
E que bem me sabia aquele bocado! Ele a falar e eu a instigar, fazendo-me de verdadeiramente impressionado com as destemidas façanhas do meu velho amigo. Então, quando uma estória recaia sobre uma mulher bonita, o Ti Jerónimo baixava o seu chiar fanfarrão, pois a Ti Palmira estava por perto, e ele, (sussurrava-me entredendes), não queria despertar na esposa algum assomo de ciúme. Mas a Ti Palmira não era ciumenta, e muito menos de um passado narrado em estórias que nunca existiram. E perante o desfilar das bazófias do seu homem encolhia os ombros, largava um sorriso cúmplice e pronunciava baixinho, sem que ele ouvisse: «pantomineiro!».
Por volta das 10 horas da noite íamos todos cear e o Ti Jerónimo dormir, de tão cansado que ficava ao desfiar o seu imagético reportório. No outro dia acordava logo pela madrugada para ir regar a horta ao Plagão, e quando estávamos perto da 9 horas da manhã, já ele assobiava da sua varanda uma melodia de melro de bico amarelo, depois do papo cheio com uma sardinha de escabeche a pingar no pão, acompanhada com um copo de tinto carrascão, ainda com espuma, que lentamente ia vertendo no papo para o amansar da revolta causada pelos abusos do dia anterior.
Durante a semana voltava a reinar no comportamento do meu vizinho o mesmo racionalismo cartesiano de sempre. E também sempre acutilante, sempre zombeteiro, sempre oportuno, sempre inteligente, sempre lógico, lá ia comentando o quotidiano aldeão com que enchíamos os dias.
Mas o tempo não perdoa. Com ele sucedeu a minha juventude e a necessidade de abandonar o ninho onde choquei toda a minha infância e, por conseguinte, como referem os psicólogos, a moldagem da minha educação e personalidade.
Um dia tive que partir à procura das escolas que o meu concelho não tinha. Nessa altura o ensino ia até ao 9º ano de escolaridade, raramente até ao 11º, e quem quisesse fazer o 12º ou desejasse um curso universitário tinha que sair… sair para longe.
E essa minha saída foi quase drástica. Apesar de nos primeiros tempos voltar à aldeia com frequência, esses meus regressos foram sendo cada vez menos frequentes e passaram-se meses e anos…
Ao Ti Jerónimo nunca lhe perdi o rasto, e sempre que ia à aldeia visitava-o como se de um familiar se tratasse. Tal como ainda hoje faço.
De qualquer forma deixei de acompanhar o seu quotidiano com o entusiasmo com que o acompanhava quando era moço. Mas sempre que visitava a aldeia lá estava eu na sua adega à volta de um qualquer pitéu, de um copo de vinho e das palavras sempre significantes do meu velho vizinho. Vi-o, por assim dizer, envelhecer. E envelhecer bem!
Ontem encontrei o Ti Jerónimo à entrada da minha aldeia. Continua a andar de forma autónoma, numa locomoção algo ponderada, mas ainda muito direito, encostado a uma bengala, do alto dos seus noventa e um anos.
Como sempre parei junto do meu amigo e lá estive eu à conversa durante mais de duas horas. Falamos de tudo, inclusive de política, um tema de sua predilecção.
Falámos do governo, falámos contra o governo, falámos da oposição, falámos contra a oposição, falámos do estado do país, fizemos comparações, falámos do FMI, da bancarrota e do diabo a sete.
No fim, em jeito de rematação da conversa, o Ti Jerónimo num estilo já bastante pausado concluiu com mais uma metáfora em que, aliás, sempre foi muito pródigo. E no seu tom de velho oráculo, ainda mais com umas barbas brancas que lhe crescem anarquicamente há mais de uma dúzia de anos, proclamou:
- “Eles fazem o que querem e ainda lhes sobra tempo. Mas um dia o burro solta-se!”.
Depois ficou calado. Eu sorri-lhe, dei-lhe um abraço e fui à vida. E enquanto conduzia ao som das notícias da TSF, a frase do Ti Jerónimo lambia e arredava constantemente todos os outros pensamentos que me afluíam à mente:
- “Eles fazem o que querem e ainda lhes sobra tempo. Mas um dia o burro solta-se!”.
E pensando nesta frase, desejei para mim próprio que a profecia do Ti Jerónimo tenha uma rápida concretização e que esse tal dia chegue depressa, já amanhã, mesmo tendo concluído que o burro também sou eu; eu e muitos outros milhões que não têm a vontade necessária para dar o esticão final, um esticão capaz de soltar a tal corda, uma corda invisível e que inexplicavelmente, de uma ou de outra maneira, nos traz a todos amarrados.
- “Amanhã vai chover, Sr. Luís”.
O senhor Luís era o meu avô materno que vivia porta com porta com o Ti Jerónimo e que mais do que ninguém confiava piamente nas suas previsões meteorológicas. E o meu avô tinha as mais comprovadas razões, pois segundo me recordo, eram raras as vezes em que a análise que o Ti Jerónimo fazia à correria das nuvens estava errada.
De pequenino ficaram-me estas reminiscências do homem que hoje vos vou falar e que quase nem dão para a consistência de um parágrafo; mas durante a minha juventude lembro-me perfeitamente das longas conversas que tínhamos sentados num muro de xisto à entrada da rua que sempre foi só nossa. Minha e do Ti Jerónimo.
Quando nos meus quinze ou dezasseis anos me apresentaram e eu comecei a compreender o que é a Filosofia, logo encontrei no Ti Jerónimo o arquétipo do verdadeiro filósofo, não pela maneira como se expressava, mas sim pela consistência com que raciocinava, analisava, espartilhava as ideias e depois reconstituía de forma original um ordenado e lógico pensamento.
A sua escolaridade era a essencial para o meio onde vivia, tendo-se ficado apenas pela 3ª classe, estudos que lhe proporcionaram os instrumentos necessários para saber ler e para fazer operações matemáticas simples como somar, subtrair, dividir e multiplicar.
Contudo, o Ti Jerónimo tinha um cérebro fabuloso, de rápida compreensão e fácil assimilação que incorporava tudo o que se lhe dizia. Mas mais do que incorporar ou assimilar, o seu pensamento seleccionava, ordenava, analisava, estruturava e concluía.
O único “senão”, residia nos momentos em que um copito a mais lhe toldava a sua racionalidade cartesiana e ele partia para um mundo imaginário quase sem fundo, meio quixotesco, desfiando sem parar uma sequência de estórias que de forma quase cerimonial relatava na primeira pessoa, mas que se percebia bem que eram pura mentira, inventadas no momento, dando asas a uma imaginação galopante que só parava quando o efeito de Baco lhe abandonava o córtex.
Era nessas alturas que eu mais gostava de o ouvir! E que parvo eu fui em não ter registado por escrito, ou por outros meios, aquele alfobre de imaginação, de estórias bem construídas, onde desfilavam mulheres bonitas, soldados audazes, ricos, pobres, camponeses, exploradores sem escrúpulos, pobres desenrascados, cenas de caça, cenas de pesca, cenas de trabalho, lobisomens, feiticeiras, almas do outro mundo, aventuras de romaria, e tudo, tudo muito bem descrito até ao pormenor da cor, do som, do cheiro e de todo um ambiente onde se movia um único e invencível herói: o Ti Jerónimo!
O vinho dava-lhe apenas para isso. Para inventar, inventar sem cessar estórias que quase pareciam reais, mas que na verdade não passavam de uma incontrolável fantasia que aflorava à cabeça do meu vizinho nos finais das tardes de Domingo. Só nesse dia é que o Ti Jerónimo abusava um pouquito mais dos copitos, e então, antes da ceia, quando as tardes quentes de verão caiam para os lados de Provezende, num vermelhão escaldante que se empoleirava, antes da noite cair, no topo do monte de S. Domingos, lá ficava ele a verter pelos esbugalhados e acinzentados olhos as imagens criadas no bulício da sua imaginação.
E que bem me sabia aquele bocado! Ele a falar e eu a instigar, fazendo-me de verdadeiramente impressionado com as destemidas façanhas do meu velho amigo. Então, quando uma estória recaia sobre uma mulher bonita, o Ti Jerónimo baixava o seu chiar fanfarrão, pois a Ti Palmira estava por perto, e ele, (sussurrava-me entredendes), não queria despertar na esposa algum assomo de ciúme. Mas a Ti Palmira não era ciumenta, e muito menos de um passado narrado em estórias que nunca existiram. E perante o desfilar das bazófias do seu homem encolhia os ombros, largava um sorriso cúmplice e pronunciava baixinho, sem que ele ouvisse: «pantomineiro!».
Por volta das 10 horas da noite íamos todos cear e o Ti Jerónimo dormir, de tão cansado que ficava ao desfiar o seu imagético reportório. No outro dia acordava logo pela madrugada para ir regar a horta ao Plagão, e quando estávamos perto da 9 horas da manhã, já ele assobiava da sua varanda uma melodia de melro de bico amarelo, depois do papo cheio com uma sardinha de escabeche a pingar no pão, acompanhada com um copo de tinto carrascão, ainda com espuma, que lentamente ia vertendo no papo para o amansar da revolta causada pelos abusos do dia anterior.
Durante a semana voltava a reinar no comportamento do meu vizinho o mesmo racionalismo cartesiano de sempre. E também sempre acutilante, sempre zombeteiro, sempre oportuno, sempre inteligente, sempre lógico, lá ia comentando o quotidiano aldeão com que enchíamos os dias.
Mas o tempo não perdoa. Com ele sucedeu a minha juventude e a necessidade de abandonar o ninho onde choquei toda a minha infância e, por conseguinte, como referem os psicólogos, a moldagem da minha educação e personalidade.
Um dia tive que partir à procura das escolas que o meu concelho não tinha. Nessa altura o ensino ia até ao 9º ano de escolaridade, raramente até ao 11º, e quem quisesse fazer o 12º ou desejasse um curso universitário tinha que sair… sair para longe.
E essa minha saída foi quase drástica. Apesar de nos primeiros tempos voltar à aldeia com frequência, esses meus regressos foram sendo cada vez menos frequentes e passaram-se meses e anos…
Ao Ti Jerónimo nunca lhe perdi o rasto, e sempre que ia à aldeia visitava-o como se de um familiar se tratasse. Tal como ainda hoje faço.
De qualquer forma deixei de acompanhar o seu quotidiano com o entusiasmo com que o acompanhava quando era moço. Mas sempre que visitava a aldeia lá estava eu na sua adega à volta de um qualquer pitéu, de um copo de vinho e das palavras sempre significantes do meu velho vizinho. Vi-o, por assim dizer, envelhecer. E envelhecer bem!
Ontem encontrei o Ti Jerónimo à entrada da minha aldeia. Continua a andar de forma autónoma, numa locomoção algo ponderada, mas ainda muito direito, encostado a uma bengala, do alto dos seus noventa e um anos.
Como sempre parei junto do meu amigo e lá estive eu à conversa durante mais de duas horas. Falamos de tudo, inclusive de política, um tema de sua predilecção.
Falámos do governo, falámos contra o governo, falámos da oposição, falámos contra a oposição, falámos do estado do país, fizemos comparações, falámos do FMI, da bancarrota e do diabo a sete.
No fim, em jeito de rematação da conversa, o Ti Jerónimo num estilo já bastante pausado concluiu com mais uma metáfora em que, aliás, sempre foi muito pródigo. E no seu tom de velho oráculo, ainda mais com umas barbas brancas que lhe crescem anarquicamente há mais de uma dúzia de anos, proclamou:
- “Eles fazem o que querem e ainda lhes sobra tempo. Mas um dia o burro solta-se!”.
Depois ficou calado. Eu sorri-lhe, dei-lhe um abraço e fui à vida. E enquanto conduzia ao som das notícias da TSF, a frase do Ti Jerónimo lambia e arredava constantemente todos os outros pensamentos que me afluíam à mente:
- “Eles fazem o que querem e ainda lhes sobra tempo. Mas um dia o burro solta-se!”.
E pensando nesta frase, desejei para mim próprio que a profecia do Ti Jerónimo tenha uma rápida concretização e que esse tal dia chegue depressa, já amanhã, mesmo tendo concluído que o burro também sou eu; eu e muitos outros milhões que não têm a vontade necessária para dar o esticão final, um esticão capaz de soltar a tal corda, uma corda invisível e que inexplicavelmente, de uma ou de outra maneira, nos traz a todos amarrados.

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