| Jornal online - Registo ERC nº 125301



O homem que engoliu a lua
CRÓNICAS DO NORDESTE é uma rubrica que se pretende fundamentalmente subjectiva. Um espaço simples que tem sempre por base a região, a sua história, a sua cultura e as suas gentes. Um espaço franco onde os sentires sem barreiras e os estados de alma pura podem ser vertidos a qualquer momento.
O responsável por esta rubrica escreve esporadicamente.

Publicado domingo, maio 15, 2011 | Por: António Luís Pereira

Levantou-se, ajeitou as calças à proeminente redondez da barriga e saiu. Não disse uma palavra, um até amanhã, um até logo, um até já.

Enquanto ali esteve ouviu. Não proferiu uma palavra, não esboçou um sorriso, um olhar ou sequer desenhou qualquer gesto. Esteve o tempo que lhe apeteceu a ouvir, só a ouvir. Depois de farto saiu, tão mudo como havia entrado.

Guilherme andava estranho. Isso era consensual no grupo de amigos que frequentavam o bar da Tina. Depois das suas últimas conversas que abordavam constantemente o fim do Império Romano, Guilherme havia-se emudecido, e quando interpelado por algum dos seus amigos dava uma encolhedela de ombros e assim ficava, com um ar ausente, como se ali não estivesse. Ultimamente até já se assentava numa mesa à parte.

Raul foi o primeiro a estrebuchar. ( - Porra, mas o que é que tem este gajo?), perguntou de chofre aos amigos quando Guilherme ultrapassava a porta da saída. Mas estes encolheram também os ombros, sem qualquer resposta.

O que eu sei – disse o Carlos, depois de algum tempo ter passado sobre a pergunta do Raul - é que este gajo sempre foi muito estranho. Quando ainda era puto meteu-se dentro de uma caixa de papelão e atirou-se da varanda da avó abaixo a dizer que ia à lua, lembram-se?; depois foi à tropa e passados quinze dias refugiou-se no monte da Petisqueira onde se tornou eremita. Teve que lá ir a GNR engavetá-lo e levá-lo novamente para o Regimento nº 13 onde o tiveram preso durante não sei quanto tempo. Dizem que na faculdade um dia se transfigurou em D. Afonso Henriques e erguendo-se do meio do anfiteatro desceu até à secretária do lente a esgrimir uma espada e a dizer que as desgraças do país se deviam a um coxo; mais tarde transformou-se em hindu e foi para a Índia, depois veio dar aulas para a Faculdade de Letras de onde foi expulso e agora andava a pregar aos peixinhos, em escritos panfletários, as maldades do capitalismo.

Espera lá… - interrompeu o Dário – o Guilherme pode ser um lunático, mas não é maluco! O tipo faz análises muito assertivas, como sabeis, é extremamente culto, é um bom camarada e é amigo do seu amigo. É certo que às vezes se sai com aquelas teorias meio estapafúrdias, mas… convenhamos, será que nós compreendemos o que ele realmente quer dizer ?...

Bô – retorquiu o Carlos – quem é que acredita ou pode levar a sério um gajo que fala dos romanos como se os romanos fossemos nós?!!

Todos ficaram calados perante a interrogação do Carlos, mas o Dário, passados alguns segundos, rasgou o silêncio para voltar a defender o Guilherme.

- O que o gajo quer dizer é que o sistema, o nosso sistema, está falido. E compara isso à falência total da última etapa do império romano. O Guilherme apenas nos fala do colapso de um processo, da ruptura moral, social e política de um processo que está, também entre nós, a atingir o seu fim. Ele quando fala dos romanos, não fala dos romanos, fala de nós, do mundo em que vivemos, de Portugal, da Europa, da América! E olha que não sei se o gajo não terá razão na mensagem que tenta passar com essas suas metáforas, concluiu o Dário.

O mais perturbador – falava agora o César, que se achava o mais intelectual do grupo – é que ontem antes de vocês chegarem eu dirigi-me ao tipo e olhos nos olhos disse-lhe que nós estávamos muito preocupados com ele, com o seu silêncio, com o seu alheamento, com o seu comportamento. E vai o tipo, sabem o que me respondeu?

Neste momento todos estavam silenciosos à espera da resposta do Guilherme.

- Disse-me que não nos preocupássemos, que tudo era devido ao facto de ele ter engolido a lua cheia. O luar da lua irradia-lhe do estômago, encharca-lhe os intestinos e sobe descaradamente até quase à boca. É aí que tem os efeitos mais maléficos, pois faz-lhe dilatar as cordas vocais e ele assim não consegue falar. Mas que não nos inquietássemos, porque tudo isto será passageiro e terá uma resolução. Quando ele cagar a lua, tudo passará!

Todos deram uma grande gargalhada diante das palavras do César, mas o César continuou:

- Eu acho isto preocupante pá! Eu acho isto muito preocupante pá!

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