| Jornal online - Registo ERC nº 125301



A Culpa é do Afonso Henriques?
CRÓNICAS DO NORDESTE é uma rubrica que se pretende fundamentalmente subjectiva. Um espaço simples que tem sempre por base a região, a sua história, a sua cultura e as suas gentes. Um espaço franco onde os sentires sem barreiras e os estados de alma pura podem ser vertidos a qualquer momento.
O responsável por esta rubrica escreve esporadicamente.

Publicado sábado, janeiro 14, 2012 | Por: António Luís Pereira

Recuso-me a acreditar na hecatombe de um país com mais de oito séculos de história, mas a cada dia que passa constrói-se no meu ser uma espécie de revolução interior que me faz pensar que a Batalha de São Mamede foi um triste acidente na história da Península Ibérica e que o D. Afonso Henriques é o único responsável pela situação a que chegou Portugal.

A geografia das pilhagens e das conquistas desse tempo são as únicas acções responsáveis pela construção e consolidação sucessiva de um rectângulo cujos limites se desenharam à custa de muitas chacinas e de muitos mouros degolados.

Tudo isto a que chamamos Portugal, no panorama geral da história europeia, se foi erigindo com feição real e alegórica, e século após século se foi sobrepondo num cenário de fantásticos feitos que fecundaram um místico reino assente numa beata moral, a tal moral geradora do encanto e da beleza da nossa ilustríssima lenda.

Uma lenda encantada que montou os mares em cima de Barca, de Barinel, de Nau ou de Caravela sem quaisquer resultados para o seu povo . Portugal é isso: uma lenda, uma eterna fantasia!

Uma lenda absurda e passadista onde se movem os reis com um só olho, as bruxas de vassoura em riste, corujas de pio agoirento, duendes malabaristas e gnomos “pinóquianos”. Também existem os eunucos, aqueles eunucos pérfidos e venais que o Zeca tão bem retratou num jorro de poesia.

Os outros são figurantes, milhões de figurantes, com o comportamento de personagens de banda desenhada e que de quatro em quatro anos se animam num automatismo imagético, ao preencherem com opinião o universo das sondagens, e ao colocarem a cruzinha no boletim de voto com um certo brilhozinho nos olhos.

A estes, sempre dispostos a acreditar e a ter uma inesgotável esperança, eu chamo de cidadãos e de eleitores, os meus verdadeiros compatriotas.

“Portugal é uma treta!”. Ouvi isto dizer a um jovem calmamente sentado numa mesa de café, mas com uma convicção tão profunda que acabou por me perturbar. E confesso que no sopro da emotividade com que a expressão foi sacudida, me decidi a concordar momentaneamente com ele. Por isso escrevi este texto.

Efectivamente Portugal é isto que nós temos, e não é preciso mais qualificações! A actual realidade de Portugal é um mau adjectivo por inerência com a sua história. Uma metáfora autodestrutiva, arcaica e sem evolução. Um país real de treta, com responsáveis de treta e com governantes de treta.

Este foi e parece continuar a ser o reino da demagogia, do salve-se quem puder, das clientelas sem escrúpulos, do desmazelo social, das elites bota-de-elástico; o país da cunha, do tráfico de influências, dos tachos, dos tachinhos e dos tachões; da fuga aos impostos, da justiça lenta, da má educação, da falta de civismo e de um bizarro comportamento de rico numa lamentável república “pé descalço”. E agora é também um país em que os governantes aconselham os seus concidadãos a emigrar. Vergonhoso. Indigno!

É um país onde impera a corrupção, a mentira, a fobia do défice orçamental, a ignorância, a preguiça, o parasitismo, a mediocridade, o facilitismo , o oportunismo e agora o PSD / PP .

Portugal é um barco sem rumo, sem tripulação e sem timoneiro capaz de perceber que o quadrante marcado pelo astrolábio do Terreiro do Paço está errado e que assim jamais nos conseguiremos afastar do dúbio turbilhão das “estrelas” que no passado, tal como no presente, nunca nos souberam apontar o futuro.

Mas há qualquer coisa que já se sente no ar. E esses resquícios da esperança que germina há mais de 800 anos poderá realmente crescer e de repente explodir e com ela trazer um mar de verdadeiros cravos ou, quem sabe, talvez um mar de uma outra flor qualquer. ..

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